lunes, 24 de octubre de 2016

NINA RIZZI


Nina Rizzi (Campinas, São Paulo, 1983) 



em lugar de poesia

então eu cruzo as pernas com essa cara falsificada de foda-se. chiaroscuro.

entenda.

aquela ribanceira ficou toda assoreada e era tão escuro e tanto vento e tamanha solidão, que montanha despenquei forte escorregada, esses malditos sapatos de plástico roxo. nãnã de lama.


e você não estava lá pra me estender o braço esquerdo como bem-casadinho numa igreja de santa clara.

entendo.

suas pernas lazarentas e essa cara falsificada de te venero. chiaroscuro.

e não estou numa igreja de são francisco pra te cuidar.

amor, ateu amor.


en lugar de poesía


entonces cruzo las piernas con esa cara falsificada de jódete. chiaroscuro.
entiende.
aquel terraplén quedó todo cegado y había tal oscuridad y tanto viento y tan gran soledad, que desde lo alto di un  fuerte resbalón, esos malditos zapatos de plástico violeta. ñaña de barro.   
y tú no estabas allí para extenderme el brazo izquierdo como
recién casado en una iglesia de santa clara.
entiendo.
tus piernas llagadas y esa cara falsificada de te venero.
chiaroscuro.
y yo no estoy en una iglesia de san francisco para cuidarte.
amor, ateo amor.


*****


demmens
ii

você me pegava as mãos quando eu menos esperava. e eu
nunca via mais que um dostoievski em teus
lábios. teus e não seus.

o que diziam nossas veredas bifurcadas? uma senda
entre teus nimbos-nimbos e meus cirros. branco, breu.

caminhávamos, ladoalado caminhávamos e ria
que eu poda cair. e eu ria que podia
me segurar. e ríamos de quem
nos chorava o medo.

eu podia te ver chegar. você dizia
uma saudade e seus braços cruzados
outra coisa, que eu não podia
entender. seus lábios, seus e não
teus, são cerrados pra o que não
é contradição.

eu chorava. eu acordava com a media
luz e chorava a sua sinceridade, não querer
e querer é sempre a mesma coisa. eu chorava
o seu gozo em minha língua, os desenhos das tuas mãos
que tanto falavam de mim, um brinco
perdido, meus cabelos emaranhados no edredon.

aí você queria me ver nas esquinas dos mais largos
bulevares, que seria um perigo eu me perder
em teu buraco negro.

e tomamos caldo. você verde
eu de cebola. torradas. e eu não podia
me embriagar do chileno e seco
vinho que você fazia questão de me pagar. eu não
me embriagava e te via partir no metrô, ônibus,
vontade. nossos lábios lábios se tocavam quase
-sem-querer. nossas mãos não queriam se
desgrudar, mas não eram nossos os nossos
corpos que não se queriam e eu te via
partir e você não me via ficar.

e quando eu parti você me mandou
girassóis mortos preu me contentar e eu
mijei sobre eles, pensando em tua namoradinha
inglesa. e eu sou mediterrânea — africana.

depois, faminta da tua ausência e miséria, comi, tua
lembrança, intratável.


demmens
ii

tú me cogías las manos cuando menos lo esperaba. y yo
nunca veía más que un dostoievski en tus
labios. tuyos y no suyos. 

¿qué decían nuestras veredas bifurcadas? una senda
entre tus nimbo-nimbos y mis cirros. blanco, brea.

caminábamos, ladoalado caminábamos y se reía
de que yo podía caerme. y me reía de que podía
agarrarme. y nos reíamos de quien
nos lloraba el miedo. 

yo podía verte llegar. tú decías
una nostalgia y tus brazos cruzados
otra cosa, que yo no podía
entender. sus labios, suyos y no
tuyos, están cerrados para lo que no
es contradicción.

yo lloraba. me despertaba a media
luz y lloraba tu sinceridad, no querer
y querer siempre es lo mismo. yo lloraba
tu gozo en mi lengua, los dibujos de tus manos
que tanto hablaban de mí, una galantería
perdida, mis cabellos enmarañados en el edredón.

que si querías verme en las esquinas de los más anchos
bulevares, que sería un peligro que yo me perdiera
en tu agujero negro.

y tomamos caldo. tú de verdura
yo de cebolla. tostadas. y yo no podía
embriagarme del chileno y seco
vino que tú te empeñabas en pagarme. yo no
me enmbriagaba y te veía partir en el metro, autobús,
deseo. nuestros labios se tocaban casi
sin querer. nuestras manos no querían
despegarse, pero no eran nuestros nuestros
cuerpos que no se querían y yo te veía
partir y tú no me veías quedarme.     

y cuando yo partí me mandaste
girasoles muertos par que me contentara y
meé sobre ellos, pensando en tu novieta
inglesa. y yo soy mediterránea-africana. 

después, hambrienta de tu ausencia y miseria, comí, tu
recuerdo, intratable.

 *****


E danço um tango com você

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas

acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida

ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.


Y bailo un tango contigo

he leído en las tls del mundo que mazombos y mazombas
ven muy normal el estupro, que las mina entregándose
así de fácil  
y recuerdo que los afganos violan mujeres con burka
porque ellas exageran con el  kajal y el rímel
y oigo que una niña de 8 da riendo lo que yo no doy llorando.

me dan ganas de vomitar mientras miro las vías del metro que nunca va a llegar.
no sale en los diarios, mucha gente – esas mujercitas también –
se lanza allí todos los días.
no vomito.  hoy es el aniversario da maria y quiero adornar su cuerpo
con flores, con olores y  alaridos.

siempre que pienso en maria tengo ganas de llorar.
perdono el mito de la superioridad de kipling. perdono el izquierdismo do ggm.
perdono el oportunismo de los poetas de mi tempo.
a ti, pido permiso a tu padre exú, no te perdono.
no acepto tu arte y te mataría por eso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

pienso en las normalidades de esos señores

ella se insinúa
es por el cine, es por amor
por dios, deje – vivir la vida

además, una maria así de dada
una maria así de desnuda
una maria con la virginidad así de apretada

una maria como todas las demás, listas para la violación.

maria, tus ojos inmensos dos almendras me conmueven.
sé que no sé dar amor a quien me tiende la mano
amo lo feo y la deformación
pero miras, tú me miras
y yo solo quiero llenar tu cuerpo de las flores más lindas

te amo maria
tu territorio también es mío
tu silencio también es mío
te amo, a todos los ojos suaves, a todas las marias violadas,
anónimas.



*Traducción de Mario Grande


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